Meio ambiente costeiro

Dunas, mangue e maré: o que está em jogo no litoral

Manguezais e vegetação costeira na ilha

A ilha tem 42 praias e um mosaico de ecossistemas que sustentam pesca, turismo e qualidade de vida — mas também atrai obras, loteamentos e pressão imobiliária. Entre dunas protegidas por lei, manguezais no Sul e debates sobre ampliação de infraestrutura na orla, o meio ambiente costeiro virou campo de disputa política e econômica.

Conversamos com biólogos marinhos, pescadores artesanais, moradores de bairros costeiros e técnicos em licenciamento ambiental. A conclusão não é simplista: preservar não significa congelar a cidade, mas o ritmo atual de intervenções preocupa quem estuda o litoral há décadas.

Dunas: patrimônio em movimento

As dunas da Joaquina e do Rio Tavares são símbolos nacionais de conservação. A vegetação fixadora de areia — especialmente a erva-baleeira — impede que o vento carregue o sedimento para o mar e protege construções distantes da beira. Caminhar fora das passarelas, prática ainda comum entre visitantes, destrói esse tecido vivo em poucas temporadas.

Órgãos ambientais aplicam multas, mas a fiscalização não acompanha o volume de turistas. Guias locais tentam educar grupos, porém a responsabilidade não pode recair só sobre voluntários. Moradores pedem campanhas permanentes em hotéis e aplicativos de turismo, não apenas placas enferrujadas na entrada da praia.

«Duna não é cenário de foto — é barreira que segura a cidade do avanço do mar», resume a bióloga Helena S., pesquisadora em geomorfologia costeira.

Manguezais do Sul: a linha de frente invisível

No Sul da ilha, manguezais abrigam caranguejos, aves migratórias e servem de berçário para peixes que depois alimentam a rede de pesca artesanal. A legislação protege a vegetação, mas esgotamento irregular, descarte de entulho e cortes para «limpeza visual» ainda aparecem em fiscalizações.

Pescadores relatam redução de captura em áreas onde o mangue foi degradado. O impacto econômico é local e concreto, embora raramente entre em cálculos de viabilidade de novos empreendimentos. Quando entra, costuma ser subestimado.

Obras na orla: promessa e risco

Projetos de ampliação de calçadões, drenagem e contenção de encostas dividem opiniões. Engenheiros defendem que infraestrutura bem planejada protege moradores de ressacas cada vez mais intensas. Ambientalistas alertam para hardening da costa — quando o concreto impede a praia de se recompor naturalmente e empurra a energia das ondas para outros pontos.

O que falta, segundo técnicos ouvidos, é monitoramento de longo prazo depois da entrega da obra. Sem dados públicos de erosão antes e depois, a discussão vira ideológica. A universidade tem capacidade de medir; o gargalo é integração com gestores municipais e estaduais.

Vegetação costeira e área de preservação
Manguezais no Sul da ilha concentram biodiversidade e disputa por território.

Maré e clima: o relógio que não para

Eventos de maré de vivência e tempestades subtropicais testam a resiliência do litoral urbano. Bairros baixos alagam com combinação de chuva forte e maré alta. Soluções de engenharia cinza — bombas, muros — convivem com propostas de natureza baseada em soluções, como recuperação de banhados e ampliação de áreas verdes de infiltração.

Para a juventude que cresceu na ilha, a mudança climática não é abstração: é calendário de surf alterado, calor extremo em fevereiro e seguro residencial que não cobre enchente. Cobertura ambiental séria precisa conectar ciência a essa experiência cotidiana.

Turismo e capacidade de carga

A ilha recebe milhões de visitantes por ano. O debate sobre capacidade de carga — quantas pessoas uma praia ou trilha suportam sem degradação — ainda é tímido no discurso político. Empresários do turismo temem qualquer limite; ambientalistas apontam que sem limite a própria receita colapsa quando o lugar perde atrativo.

Experiências de gestão compartilhada em unidades de conservação mostram que é possível conciliar acesso e proteção quando há regra clara, fiscalização e benefício direto para comunidades locais. Replicar o modelo na orla urbana é mais difícil por disputa de interesses e fragmentação administrativa.

Papel da universidade e da sociedade

A UFSC produz dados sobre qualidade da água, sedimentos e biodiversidade. Parte fica em artigo acadêmico; parte poderia alimentar painéis públicos acessíveis. Iniciativas de ciência cidadã — monitoramento de lixo, registro de aves — engajam estudantes e moradores, mas precisam de continuidade, não de projeto-piloto que acaba com a verba.

Associações de bairro no litoral ganharam voz em audiências públicas. O desafio é manter participação além do momento de crise, quando um empreendimento específico ameaça uma área conhecida.

O que fazer com essa informação

Preservar o meio ambiente costeiro na ilha não é luxo de ONG: é manutenção da base que sustenta pesca, turismo responsável e a identidade de quem mora aqui. Jovens que surfam de manhã e trabalham à tarde têm interesse direto — mar sujo e praia erodida afetam lazer e economia ao mesmo tempo.

O Ilha em Foco vai continuar acompanhando licitações, estudos de impacto e movimentos comunitários. Ambiente costeiro não é pauta de um dia: é a condição de possibilidade de tudo o mais que a ilha promete.